segunda-feira, 14 de março de 2011

A Chegada do Medo

Por Paulo Coelho

Dia 11. O demônio da terra resolveu, com motivos tolos, descontar sua ira sobre aqueles que vivem sobre ela. Assim que desembainhou seu inarrefecível ataque, não só o chão como todo o firmamento tornou-se frágil. A palavra da criança japonesa desapareceu em meio aos gritos.
A seguir, veio a desgraça das água, perturbadas pela violência do demônio da terra. A água, apesar de leve e lúcida, torna-se voraz quando atiçada. Engolindo vida e lodo, torna-se a própria encarnação da destruição. Tudo por culpa do demônio.
Como conseqüência do caos, a energia que movimenta o país, trata de fazer seu próprio movimento. A radiação foge de seu enclausuramento e atinge por sua vez tanto o solo maldito do deus da terra quanto o líquido sagrado do deus das águas.
Entre mortes aos milhares, as pessoas apelam então para as palavras de seus anciões:
"Mas avó, o que fazer agora que não podemos mais desfrutar da água e do solo, que antes nos eram oferecidos livremente e se tornaram essenciais para a vida?"
"Vivemos em um mundo de deuses e demônios, tudo os pertence. Se querem levar de volta o que lhes é de direito, só temos como rezar para que nos sobre algo após a perturbação."

---

Matéria fictícia a respeito dos problemas ocorridos no Japão em virtude dos terremotos, tsunami e vazamento radioativo, desde o dia 11 de março de 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário